Vários livros nos ensinam como jogar Poker através de uma série de instrumentos teóricos e práticos escritos por grandes jogadores e aficcionados pelo jogo, instruindo-nos com a matemática envolvida em cada mão, as leituras sobre os nossos adversários, a psicologia necessária, a dinâmica das apostas e suas conseqüências em comparação com o nosso stack, as características de jogadores, as adequações importantes se estamos jogando Hold´em, Omaha ou Razz, se cash ou torneios etc.
Outros ensinamentos nos garantem aquilo que já sabíamos de outras atividades que requerem atenção e concentração: quando jogamos cansados temos a sensação de que as boas cartas já não vêm com tanta frequência dificultando as nossas ações perante adversários que apostam incessantemente. Preocupações extras e crônicas também são alvos de desconcentrações pontuais que podem ser decisivas no resultado da sessão.
Na medida em que mais jogamos Poker e se somos pessoas realmente com vontade para melhorá-lo mesmo que gradualmente, esses ensinamentos, de alguma forma, vão fazendo parte de nosso arsenal de táticas e estratégias as quais nos darão a sustentação informativa para decidir de acordo como as percebemos até no momento da aposta.
Apesar da grande gama de informações que construímos, elas, provavelmente, nunca serão suficientes para decidirmos pela melhor jogada (desistir da mão, apostar a mão, subir a mão, blefar), pois, como já descrevemos em posts passados, são informações baseadas em conjecturas e inferidas indiretamente através do conhecimento dos instrumentais descritos no primeiro parágrafo desse texto.
Se a decisão pela melhor jogada nem sempre é factível de ocorrer e mesmo que a interpretemos corretamente e façamos a jogada de acordo com essa análise, ainda assim podemos perder a mão devido as variâncias intrínsecas do Poker, resta-nos optarmos por aquilo que chamo de “Ponderação ao Risco”. Fundamentalmente é sobre o quanto cada jogador está disposto a correr o risco, diante das expectativas geradas numa mão pelas informações captadas, mas que sabe não serem totalmente fidedignas como também pelo fato de sabermos sobre a tal da variância...
Meu amigo Ricardo Rocha, conhecido por ser um jogador ultra tight (mas que sabiamente utiliza essa imagem para surrupiar algumas mãos) faz sempre uma afirmação interessante, o que demonstra a sua ponderação ao risco. Diz ele: “O cara pode estar blefando, mas essa queimação logo passa. Agora, a queimação de estar fazendo o cheque no final da sessão leva mais tempo...”.
A frase do Rocha traduz o grau de sua vontade para correr riscos. Na verdade, ela demonstra claramente que, mesmo diante de todas as expectativas favoráveis, a dor de ter sido enganado e, portanto, perder a aposta, é maior do que o prazer gerado pela vitória. Essa reação simboliza a nossa defesa natural diante do risco de perder algo importante, mesmo diante da lógica advertindo-nos de que o "risco" da vitória seja mais plausível de ocorrer.
Ocorre que essa lógica traduz aquilo que o Poker é de fato. Um jogo imponderável, que gera adversidades, às vezes com reações não controladas por nossa racionalidade. O Poker desafia a nossa alma, pois sempre nos estará desafiando para atitudes contrárias às que sempre estivemos acostumados, ao conforto da situação, a passividade como forma de entretenimento e o pensamento na lógica comum, bem menos complexa para ser analisada. Ao mesmo tempo, penaliza os que são perdulários, aqueles que vêem o risco como símbolo da coragem, o fanfarrão ou aquele que não acredita na lógica da informação imperfeita.
E você, como você encara o risco?
Chip Hunter
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